Algumas vezes na vida nos deparamos com fatos – acontecimentos,
gestos, frases, ações - que nos fazem sentir vergonha de onde
estamos. Pode ser uma notícia ruim envolvendo o país da gente, ou
uma mentira maldosa que espalharam sobre nosso(a) melhor amigo(a).
Uma coisa que envergonha muitas pessoas, por exemplo, é o descalabro
assombroso com que os políticos brasileiros conduzem o processo
legislativo. É tanto mau-caratismo, que ao invés de "processo
legislativo", a coisa deveria se chamar "barganha
processual legislativa".
Porque tudo, absolutamente tudo tem um preço. E juro que eu sei do
que estou falando.
Mas volto ao tema do princípio.
Falava dos fatos que nos causam uma vergonha tão grande, que nos
fazem sentir vontade de nem ter nascido. Pois bem. Hoje me deparei
com um desses. Trata-se de uma entrevista publicada num jornal de
grande circulação, onde um distinto membro do Poder Executivo se
referia a uma empresa estatal como se a mesma não passasse de uma
moeda de troca política. Ou seja, como se a razão de existir dessa
empresa, (diga-se de passagem, toda empresa pública tem que ser
criada por lei) fosse apenas a facilidade perante repasse de verbas.
Confesso: estou perplexa com tanta "sinceridade".
Daí eu ter me colocado a pensar
no quanto uma pessoa consegue ser imparcial no seu dia a dia.
Situações existem que nos impossibilitam de mostrar que opinião
temos deles, os fatos. E de fato, pense comigo: quantas vezes você
consegue ser imparcial durante o dia? Quantas vezes consegue dar uma
resposta sem nenhum pinguinho de opinião própria a respeito?
Difícil.
Não vou falar de trabalho porque
tenho certeza de que muitos virão dizer: consigo ser imparcial
naquilo que faço. Tudo bem. Mas eu digo que é mentira. Não dá,
não tem jeito: tudo que fazemos carrega um pouco do que pensamos.
Nem que seja na quantidade de tempo gasto para realizar uma tarefa –
ali também tem nossa opinião embutida dizendo: "fiz
rapidamente porque não suporto ser chamado de incompetente", ou
"fiz imediatamente porque não gosto que demorem quando sou eu
quem peço alguma coisa". Ou ainda: "demorei porque odeio
esse assunto e por isso meu rendimento caiu", "custei para
completar a tarefa porque não me importo se existia urgência nesse
serviço". Logo, eu tenho razão quando disse que em tudo o que
fazemos, transparecemos nossa opinião a respeito.
E nas relações pessoais? Não
estou falando de só relacionamentos conjugais,
fraternais, profissionais. Falo das simples relações sociais, como a que você tem
com o cara que entrega o jornal da sua casa bem cedinho. Ah! Você
não tem relação social com ele? Tem sim, é claro. E a sua opinião
a respeito dele, do trabalho dele e de tudo o mais que envolve, está
lá, na maneira como você agradece (ou não) a criatura.
Isso pra mim é parcialidade. Ser
parcial, tomar partido, acreditar em algo. Ser educado é tomar
partido dos que acham que se deve ser polido para ser aceito numa
determinada sociedade ou grupo. Agir sem a menor
educação é tomar partido dos que pensam que não dependem do outro
para viver. Enfim, seriam milhares os exemplos, se eu quisesse dá-los
aqui.
A questão cinge-se no que vem
depois da parcialidade. É a autenticidade. Será que a gente sabe
assumir o próprio pensamento? Não é fácil dizer: neguei porque
não gosto ou não acho certo. Fácil é adiar a negativa sem dar
explicações. Volto ao entrevistado do dia. Foi bastante fácil
negar uma porção de fatos, mas em cada negativa, ele afirmava que
pensa ao contrário. Deveras, quem souber do que falo e conhecer
quais os elementos - de fato – do tal fato decepcionante, saberá
que estou certa se disser que não
há imparcialidade quando as palavras se juntam numa frase.
Definitivamente, todo peixe
morre, ou morrerá, pela boca.


Adorei o texto :D
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